 |
| Espaço Cultural |
|
| |
|
| >> | Textos e Poesias |
|
| |
|
 |
 |
|
|
Espaço Cultural >> Textos e Poesias
|
Visão do Inferno
Florianópolis, Sábado, 27/12/03, 10:00hs aproximadamente. Sc 401, trevo de Jurerê. O plano era chegar à Praia Brava para encontrar amigos, curtir a praia e as ondas, como de costume há mais de 15 anos. Em frente a Polícia Rodoviária sinto um peso no peito e um nó na garganta, mãos suadas e uma inquietude sem explicação racional aparente. Em seguida, logo após a curva, no trevo do Ratones, vejo uma cena horrível, luzes amarelas e vermelhas acesas em várias partes, carros parando e um enorme engarrafamento se formando.
Na hora, o que veio à mente foi pegar o viaduto no sentido Jurerê e tentar escapar indo por Canasvieiras, mas os mesmo sintomas voltaram 500 mts depois do término deste mesmo viaduto. Jurerê estava entupida também. O que fazer? Uma sensação de perda de liberdade tomou conta do ambiente, o começo de um stress caríssimo, a situação de estar preso em um carro num sábado de sol na hora do almoço. Percebi que estava no meu limite, a um milímetro de perder a graça e tornar aquele dia um verdadeiro inferno. Decidimos ir para o Campeche.
Nada anormal para quem enfrenta esta rotina diariamente, que não percebe mais os efeitos perversos ao seu estado de espírito de um sentimento de opressão causado pelo excesso de verticalização. Algo sobre algo, alguém sobre alguém. Esta realidade cerceia a liberdade, limita a flexibilidade e gera desigualdade. Até quando vamos aturar essa maldade?
Nasci na maternidade Carlos Corrêa, tenho tataravôs nascidos aqui também. Fui criado no meio de bruxos e bruxas que esta ilha ainda têm. A princesinha do Atlântico ainda atrai etnias de várias partes do planeta, e todos os nascidos aqui são fruto desta história. Uns chegaram antes, outros depois, mas todos parecem querer estar aqui por aquilo que ela tem de melhor, sua qualidade de vida exuberante, o que não é novidade para ninguém. Hoje, os que habitam nesta ilha, tem em suas mãos um dos maiores gargalos já percebidos em sua história, a decisão de saber onde vai dar este processo de ocupação desorganizada observada em nossa terra. Que progresso é esse que nos gera sofrimento? E para alimentar quem?
Me lembro da Praia Brava quando não havia um só prédio, no tempo que o surfe injetava paz nas nossas veias. Surfistas, pescadores, o bar do Aldinho (Lício), amigos de fé. Pássaros aos montes, vacas e lagartos. Concentração demográfica reduzida, espaço para todos viverem em harmonia, sem apertos. Imagine antes disso? Não se pode voltar no tempo e concertar os erros do passado, mas pode-se perfeitamente direcionar o caminho do futuro, através de uma atitude consciente neste momento presente.
Realmente vivemos um saudosismo precoce. Certamente os que agora chegam não conseguem entender a gravidade deste sentimento, pois somente agora é que estão chegando, e não conhecem a história. O inferno aqui se mostra mais ameno, o que, para estes, demonstra um progresso. Ou seja, sair do inferno e dar uma voltinha no purgatório é sinal de evolução. Para os que vivem no céu, ter que descer a este purgatório torna-se ridículo, mas infelizmente este ridículo tem nos sido imposto já fazem alguns anos. Esta falta de visão de longo prazo é o que mais apavora, pois não se mostra com atos alguma coisa que verdadeiramente venha a resolver as distorções estruturais de uma cidade que cresce sem ordenamento.
Ainda estamos no limiar, ou a sociedade pára pra pensar, ou os nossos filhos é que irão chorar. Reconstruir custa muito mais do que construir, porque necessita derrubar para depois reedificar, e derrubar o que já foi pago. Porquê isso? Para continuar a alimentar a ganância de uma pequena parcela de nossa sociedade, uma minoria, disfarçada, que muitas vezes associada aos interesses capitalistas de grupos econômicos de fora daqui, transformam a lei ao seu favor para aumentar suas riquezas, às custas da destruição do patrimônio público e a degradação da qualidade de vida dos que aqui residem.
O conceito técnico desenvolvimento sustentável implica na total renovação dos recursos naturais, ou fatores de produção, em uma outra linguagem, que geram a subsistência humana, de modos que estes nunca venham a se exaurir, para permitir assim a perpetuidade da nossa existência. Muito antes desta aparente utopia, poderiam dizer alguns liberais, existe a necessidade de infraestrutura, já que estamos falando de uma organização social, uma cidade. O custo da infraestrutura já é altíssimo, imagine então o custo ambiental? Se forem pagos os dois, o processo de verticalização não seria tão rentável, ou até mesmo poderia ser inviável, mas para isso não aparece o responsável. E se tudo virar uma selva de pedra rodeada por favelas, praias de água marrom de péssimo odor e lençol freático imprestável, o que essa gente do poder poderá nos dizer? E ainda o que poderão fazer? Estarão longe do discurso, escondidos em seus particulares redutos usurpando novamente as riquezas alheias em benefício próprio, alimentando aquilo que nunca se satisfaz, o seu próprio ego.
A cidade precisa urgentemente de uma mudança estrutural substancial, deixar de beneficiar grupos e interesses isolados, passando a observar efetivamente aquilo que se chama de direito difuso, que contempla o interesse do todo, e não o das partes. O que para muitos parece o impossível, para outros é só um desafio. O imprescindível é a determinação de querer a mudança, a ponto de realizá-la, e para isso só é necessário uma coisa, a conscientização de cada um. Vale lembrar que ainda há tempo.
Alexandre Lemos
Economista, surfista, ambientalista e empresário.
Michele Cardoso Assessoria de Imprensa (48) 3028-0870/9964-7760/3223-7532 jornalismoambiental@gmail.com
|
|
|
| Lista de Textos e Poesias |
|
|
|
|
|